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Na realidade, eu odeio tanta realidade

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Em algum momento um bom tanto de anos atrás, instalaram a finada Multicanal lá em casa; depois do choque inicial daqueles infinitos vinte ou trinta canais - coisa prá diabo, prá quem tinha logo meia dúzia de opções abertas - comecei a memorizar os números dos canais que, de fato, interessavam.

O Cartoon Netwoork tinha dois canais - SAP não era tão standard ainda, entenda... - e eu usei um tanto disso prá ajudar a aprender inglês; a TNT não esticava um filme de 75 minutos para preencher três horas de programação com intervalos a cada três minutos; Warner e Sony tinham um bocado de séries desconhecidas - esses tempos pré-torrent chegam a ser mágicos, não? - e, como tudo isso ficava lá em canais próximos, estavam no menu de todo dia.

Mas se tinha um canal que eu era apaixonado, era o Discovery.

Meio fascinado por história antiga, ciência, tecnologia, investigações médicas e nerdices afins, aquilo consumia um tempão do meu dia dedicado a televisão; Uma exploração no Egito antigo aqui, uma novidade tecnológica alí, pitadas de arquitetura, física, mecânica...

Era meu primeiro contato com a categoria "Como eu não sabia disso?", que me acompanha até hoje e se aplica a um bocado de coisas, de novidades musicais, literárias, gastronômicas e tudo mais que você pode imaginar.

Okey, eles repetiam um tanto a programação mas isso entra na cabeça depois que você entende um princípio básico da TV paga - segmentação + disponibilidade de horário - e percebe que ela não segue o padrão da aberta.

Tudo bem, era só decorar quando apareciam as novidades e nenhum problema.

Com o desenvolvimento do nosso mercado de pay tv, chegaram os outros canais de família da Discovery, chegou NatGeo, chegou History, Infinito...

Uau, que maravilha. Por um tempo, eu admito, deixei muito de lado meu primeiro vício - a leitura - por conta dessa enormidade de documentários.

Mas em algum momento que eu não consigo me lembrar, o Egito foi trocado pelo dia a dia de uma loja de tatuagens.

As fábricas de automóveis e de processadores deram lugar ao dia a dia de pessoas que fazem enormes bolos e decoram casas que estão caindo aos pedaços.

DNA, buracos negros e teoria das cordas deram lugar a uma família que fabrica e vende armas, outra família que tem uma loja de penhores e uma outra família cigana que vai casar sua filha no fim do mundo do interior da Inglaterra.

Em que momento a nossa cretinice coletiva disse que era mais bacana ver a vida de um cidadão qualquer que tatua o traseiro de uma mulher do que entender o significado da evolução das espécies?

Existe nisso um pequeno porém com pessoas que visitam fábricas, restaurantes, museus, florestas: Não é a forma mais original nem a mais educativa de apresentar nada, mas No Reservations, Food Tech, Ciudades Y Copas tem sua graça.

Pode ser a mesma pessoa, mas eu entendo o porque de um programa em que alguém te guia em lugares que você - dificilmente - vai entrar.

Mas as mesmas pessoas, toda semana, fazendo bolos, tatuando peitos, vendendo quinquilharias, montando motos e brigando - lógico, esse pessoal briga uma média de 40 vezes por bloco, pelos mais variados motivos -, uma temporada depois de outra... Porque?

Quanto um restaurador de casas suburbanas ou uma decoradora de apartamentos de luxo tem prá te mostrar em uma, duas, três, SEIS temporadas?

Claro que o pedaço reality da coisa toda pode ficar bem pior quando caimos para os realities de confinamento e provas físicas absurdas, mas quão espetacular é a realidade de um bando de funcionários de uma loja dispostos a reformar um carro?

Saudades do tempo em que você ligava nesses canais e dava de cara com uma entrevista com o Stephen Hawkins aqui e uma hora entendendo os trens de alta velocidade ali e, entre esses dois programas, não tinha passado horas e horas no sofá, acompanhando o "sofrimento", a "batalha", as "vitórias" dessa "realidade" alheia tão super-editada para nosso prazer sádico-voyeuristíco.

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  • rayson rayson Os únicos que ainda se salvam por enquanto são os Discoverys Science e Civilization, mas infelizmente estão presentes em poucas operadoras (só consegui assistir o Civilization uma única vez quando abriram o sinal na NET), mas pela grade se vê que os programas são interessantes. Há muito tempo eu migrei para a internet em busca de programação de documentários de qualidade, e tô aguardando a estreia do Philos.TV da Globosat que promete ser uma ótima alternativa, mesmo que em VoD, faço questão de assinar.
  • Avatar mlarruda Nunca fui espectador assíduo dos canais do gênero Discovery mas apoio integalmente e assino embaixo dessa crítica! E, na minha opinião, faltou criticar também o excesso de programas bio-zoo-ecológico: na mesma época em que o Egito foi trocado pela loja de tatuagens e a teoria das cordas foi trocada pela fábrica de bolos, muitos outros programas sobre ciência, história etc. também perderam seus lugares para o acasalamento dos leopardos da Tanzânia ou para os cachorrinhos que abrem portas e acendem a luz sozinhos...
  • gotardi gotardi sattv: eu deixei de me preocupar tanto com as propagandas. se entregassem conteudo decente, até aturaria mas do jeito que anda. mas como eles querem é dinheiro, com isso, essa lógica capitalista, nem imagino que de prá brigar. agora, quanto ao discovery hd theater, realmente. é o oasis de documentarios, ao contrario do history hd que tem a mesma programacao ruim, dublada e cheia de intervalos do canal em sd.
  • gotardi gotardi jeanjean / guimax: ainda bem que a impressão não é só minha. o history era mesmo um canal diferente, até porque chegou depois dos outros, quando eles já estavam dando uma piorada. uma pena. se descuidar, vai ter que seguir aquele caminho que foi do travel channel que virou liv pra depois virar id, tentando se reinventar e nunca dando em nada.
  • jeanjean jeanjean Os canais de documentarios estao loucos para atigir um publico que nao gosta de documentarios, é uma grande contradição. O Discovery, NatGeo,History, estao detonando com o prestigio das suas marcas nao so Brasil, mas, no mundo. A programação esta muito parecida entre eles, temos programas de cachorro no Discovery, no Animal Planet, Natgeo praticamente iguais. O History na minha opinião é o que consegue mais se afastar do conceito que se pretendia, ou seja a historia. Quando eu nao assinava tv paga tinha a impressao de que o history era um canal que so professor universitario, cientista e filosofo assistia, hoje vejo que o canal esta mais afim de lidar com viciados em aposta do que academicos. É lamentavel o que a ganacia por dinheiro e audiencia fazem. Epelaram geral!!!!
  • sattv sattv Sensacional seu texto, Gotardi. Sinceramente, não consigo entender a quantidade de intervalos em canais como Discovery, History e NatGeo. E, pior do que ver comerciais de produtos é aturar intermináveis blocos comerciais de programação repetidos à exaustão. Penso em desistir de ver "The Big Bang Theory" na Warner por conta dos 15.000 blocos comerciais que passam OS MESMOS comerciais (já sei todo o texto do locutor de cabeça). Pelo menos um canal ainda está longe disso tudo: o Discovery HD Theater, um dos poucos canais de TV com quase nada de comerciais. Torço para que ele não deixe de existir quando o Discovery Channel ganhar seu sinal em HD...
  • guimax guimax Um dos que mais piorou foi o History
  • Liipee Liipee Perfeito... A TV Paga virou uma imensa porcaria...

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